sábado, julho 14, 2007

Abrindo uma exceção

Qualquer espécie de corrente é um saco, sejam aquelas que você tem de repassar a 200 amigos para obter a felicidade, ou para se tornar rico, famoso, gostoso, crescer o pênis, cabelo, autoestima, sejam aquelas para sobreviver à maldição da Samara.

Não gosto de correntes, não as repasso e, no Orkut, ignoro imediatamente quem vem com este tipo de babaquice para cima de mim.

No entanto, para toda regra há exceção, e hoje, um dos leitores deste blog e amigo virtual, o Marco (autor do Unidade TV) me instigou a participar da "Corrente do Livro", na qual eu deveria falar dos meus cinco livros favoritos, e convidar outras cinco pessoas a continuar a corrente.

Tarefa duplamente inglória:

1 - decidir quais são meus cinco livros favoritos dentro de todos que já li até hoje;

2 - escolher 5 pessoas para repassar a corrente, não por que as opções são várias, mas porque não conheço quase ninguém que toparia a empreitada, ou porque devem ter conceito tão baixo sobre correntes quanto eu, ou por não possuírem o hábito de leitura.

5 dos meus Livros Favoritos

1 - Ulisses, de James Joyce

Este é o tipo de livros que as pessoas têm medo. Foi considerado como uma das obras mais importantes do século XX, é um dos clássicos da Literatura, possui adoradores e detratores.

Eu também tinha medo de "Ulisses". Havia pegado uma edição em inglês na biblioteca, tentei ler uma dúzia de páginas e desisti. Porém, alguns dias depois, assisti a um programa da TV Cultura, "Os Grandes Mestres da Literatura", falando sobre Joyce e a composição de sua obra-prima.
Assim, tendo alguma conhecimento sobre o autor e enredo da obra, tentei novamente, agora numa edição em português, na incrível tradução de Houaiss (que também possui adoradores e detratores).

Do medo, passei a quase idolatria.

Reli, reli, reli. Acho que já foram 7 vezes.

No ano passado, ganhei uma cópia em inglês, faz algum tempo que não releio Joyce, sinto-me um pouco distante da narrativa dele, já não sei mais se "Ulisses" é a obra que eu gostaria de ter escrito, mas, pela influência que teve sobre mim, como leitor e escritor, este livro merece o primeiro lugar.

2 - O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é um dos grandes escritores, não apenas em língua portuguesa, não somente do século XX, mas de todos os tempos.
Poucos, aliás, pouquíssimos possuem o domínio das imagens, das palavras, dos sentimentos, da urgência da tarefa do poeta como ele.

Sua inspiração, seu labor era tão gigantesco, que ele não cabia em si, não se bastava, por isto, se desdobrou em heterônimos, em pseudônimos, em semi-heterônimos. Pessoa eram pessoas.

É difícil escolher um dentre seus 18 mil textos. Caeiro é genial, Reis é brilhante, Campos é devastador, mas, na minha cabeceira há um espaço especial para o semi-heterônimo Bernardo Soares, o narrador de "O Livro do Desassossego". A obra é um antiromance, não tem enredo, não tem começo, nem fim. É uma série de fragmentos, trechos, pensamentos, considerações, e, por isto, é universal. Não está circunscrito a um época da História, é atemporal.

Foi uma das duas obras que escolhi para trazer comigo do Brasil para os EUA.

3 - Ficções, de Jorge Luis Borges

Este foi o segundo livro que trouxe comigo.
O primeiro encontro com Borges foi traumático, na verdade, todo encontro com um gênio é traumático. É como se nós houvéssemos chegado a um termo, a um muro do qual não podemos passar, não podemos mais criar.
Tinha ouvido falar de Borges no prefácio de "As Palavras e as Coisas" de Foucault. Esqueci-me; posteriormente, numa tentativa de descobrir a literatura latino-americana, o nome de Borges reapareceu, e se impôs, e me engoliu. Borges é um universo, quando se entra nele, nunca mais se o abandona.
Ficções é, sem dúvida, a melhor obra deste autor. Os contos, os mais inesquecíveis. Obra para ser relida por toda a vida.
Li-a primeiro na coleção de obras completas do autor, publicada pela Editora Globo, depois, em Buenos Aires, num sebo, encontrei um exemplar velho, surrado, amarelecido, é este que carrego comigo, num espanhol que nem sempre entendo, mas que já se tornou parte de mim.

4 - A Metamorfose, de Franz Kafka

Só agora reparei que, destes quatro primeiros livros, todos são de autores do século XX, talvez seja porque eles estão mais próximos de nós, diagnosticando nossa época (já que, segundo Nietzsche: "Alguns nascem póstumos"). O absurdo do mundo de Kafka é o absurdo do nosso mundo. A burocracia que nos oprime, a estranheza dum mundo que não nos pertence, a repugnância do bicho que nos tornamos.
A leitura de Kafka não é difícil. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa de obras clássicas, a leitura de Kafka é incrivelmente agradável. Ele nos faz rir, choca-nos, faz-nos chorar.
Se você puder ler no original alemão, melhor; senão, há a excelente tradução de Modesto Carone que não o decepcionará.

5 - Gargântua e Pantagruel, de François Rabelais

Cheguei a Gargântua através de Bakhtin, leitura para a pós em Literatura.
Bakhtin considera Rabelais como o grande representante dum autor popular, que consegue mesclar elementos de extrema erudição com a voz da praça pública, com a voz do povo. É claro que o texto de Bakhtin, "Cultura Popular na Idade Média e Renascimento", está imbuído da noção marxista de luta de classes, de que as Artes devem ser um espelho do povo, da classe trabalhadora.
Mas o trabalho de Bakhtin extrapola estes limites e vê em Rabelais o mais importante, a comicidade da inversão carnavalesca, do mundo às avessas.
"Gargântua e Pantagruel" arranca gostosas risadas. No começo mais, nos últimos dois livros, menos, porém, mesmo assim, é genial como Rabelais utiliza recursos da retórica escolástica entranhada duma escatologia das mais grotescas.
Meu exemplar foi uma facada, 120 reais, mas valeu a pena.

Continuando a Corrente

Então, prosseguindo com a maldição. Quem dos que escolhi para continuar a corrente será obrigado a ler Paulo Coelho e Mônica Buonfiglio pelo resto da vida se quebrá-la. UHUAHUAHUA!!!

É com vocês, Lefebvre (Breves Notas), Ibrahim (1001 Gatos de Schrödinger), Sonia (Cineblog), Bruh (Subversiva) e Uli (Baú de Coisinhas).
E não se esqueçam de passar este pepino adiante para mais 5 pessoas...

2 comentários:

Sonia Regina Gomes Maia disse...

Olá Henry!

Que roubada! Será que consigo? heheheh

Vou tentar. Tenho que postar no meu blog ou nos comentários do seu blog?

Um abraço!

Marco Paiva disse...

Gostei das suas escolhas, apesar de não ter lido nenhum dos livros (James Joyce? Jura?).

E Fernando Pessoa é ótimo mesmo. Recentemente comprei uma coletânea de algumas de suas poesias. Excelente! =)