Quinta-feira, Março 01, 2012
Arte não é o que você pensa
Em janeiro de 2007, o jornal The Washington Post resolveu fazer um experimento: convidaram um dos maiores violinistas da atualidade para tocar no metrô da capital dos EUA e ver no que dava, e gravaram com uma câmera escondida o resultado.
A expectativa era que o músico e seu violino Stradivarius valendo 3,5 milhões de dólares atraísse muita gente e que sua apresentação de quase uma hora rendesse uns bons trocados.
Todavia, o desfecho foi bastante diferente do esperado. Quase ninguém parou para ouvi-lo, ele ganhou míseros 32,17 dólares e ergueu-se a indagação: por que quase ninguém foi capaz de reconhecer a habilidade de um prodígio do violino?
O artigo do Post, Pearls Before Breakfast, para quem souber inglês, é longo e discorre sobre a natureza da Arte. Sugere-se que se isto ocorresse na Europa, o público seria maior; uma engraxate brasileira até supõe que os brasileiros teriam sido mais receptivos; e culpou-se inevitavelmente o ritmo frenético do mundo contemporâneo.
No entanto, a Arte não é o que pensamos, nem o que os poetas cantam. A Arte não é uma coisa objetiva e palpável, de fácil determinação, que se possa apontar o dedo e afirmar categoricamente: "isto é uma obra de arte, sem sombra de dúvida".
A Arte é uma questão de contexto, de tempo e espaço. A Arte é uma convenção.
O violinista estava no lugar errado e na hora errada. Ninguém está interessado em ouvir música clássica na passagem de entrada do metrô, aliás, são bem poucos os que apreciam música erudita em nossos dias.
Arranque a obra de arte de seu contexto, neste caso dos grandes salões de concerto, e ela perderá grande parte de sua relevância, a não ser para aqueles que realmente a apreciam e a reconhecem.
Esta divisão, entre o mundo sagrado e profano, ou entre a alta e baixa cultura, existe desde sempre. Selecione qualquer grande pintura em um museu e dependure-a num tapume de uma construção que seu valor imediatamente desaparecerá, e quase qualquer transeunte deixará de identificar sua importância. Imprima qualquer obra de um escritor de renome e distribua em panfletos em esquinas de grandes cidades, e verá que o destino será a lixeira mais próxima.
A Arte é o reconhecimento de determinada criação como Arte, e isto depende de várias instâncias de legitimação, como um museu, um teatro, uma livraria ou uma sala de cinema, e dos críticos, da imprensa e de acadêmicos. Arranque a obra de arte de seu contexto de legitimação, jogue-a na rua, no domínio do profano, e poucos lhe darão valor.
Mas se você fizer o caminho inverso, como Duchamps que leva um mictório de um banheiro público para um museu, numa crítica evidente ao que é Arte, você também romperá estes limites, dotando de sentido um objeto totalmente ignorado na vida corriqueira.
A qualidade da Arte não é intrínsica, é coletiva. Se houvessem espalhado o rumor que um dos maiores violinistas dos EUA estava tocando no metrô, a situação seria diferente, pois as pessoas tendem a valorizar o que outros valorizam. Se houvessem contratado uma dúzia de figurantes para se acercarem do músico, outros teriam parado para escutá-lo, pois se tanta gente se interessou, é porque deve ser bom.
No fundo, não basta tanto ser competente ou talentoso, é preciso que os outros se convençam disto e que estes convençam também os demais.
E esta é a maior dificuldade de qualquer artista em início de carreira, como atrair a atenção dos pedestres que passam por nós, todos imersos em suas próprias preocupações cotidianas, divididos por tantas outras atrações ao redor?
Como revelar aos outros o valor daquilo a que damos tanto valor, sendo que este valor depende necessariamente do reconhecimento coletivo?
A obra de arte não é o resultado de trabalho de gênios, de sujeitos inspirados, não é evidente e universalmente aceita. É cultural, é localizada, é intangível e temporal. O que é Arte hoje pode não sê-lo amanhã, e só reconhecemos a Arte de ontem graças à instâncias de legitimação que a preservam e que canonizam alguns artistas, enquanto olvidam arbitrariamente outros.
A Arte não é o que você pensa.
(publicado originalmente em http://blogdoescritor.oficinaeditora.com/2012/02/arte-nao-e-o-que-voce-pensa.html)
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Sábado, Fevereiro 25, 2012
Sherlock Holmes (2009)
Para qualquer um habituado aos livros de Arthur Conan Doyle, o criador do legendário personagem Sherlock Holmes, esta adaptação mais recente para o cinema é uma aberração.
Um personagem reconhecido por sua capacidade dedutiva, por sua astúcia e frieza de raciocínio se converteu num desajustado violento e que não possui nenhum tipo de empatia, quase um Wolverine vitoriano.
No fundo, tanto fazia se os protagonistas se chamassem detetive Arthur e doutor William, já que até o próprio doutor Watson, companheiro inseparável de Holmes, se tornou irreconhecível nesta adaptação, de um sujeito cauteloso e até um pouco titubeante, Watson agora é um lutador impecável e destemido, ou seja, quase o oposto do personagem original.
Quem assiste ao "Sherlock Holmes" dirigido por Guy Ritchie está vendo qualquer coisa além do que concebeu Conan Doyle, o que se pode perceber logo na primeira cena do filme, e isto é ruim e bom ao mesmo tempo.
A trama beira o sobrenatural, com Lord Blackwood, um assassino satanista temido por todos os londrinos, como o grande vilão. Holmes (Robert Downey Jr.) e Watson (Jude Law) são quem primeiro conseguem prendê-lo, evitando assim mais uma morte e Lord Blackwood acaba na forca.
O mistério realmente se acentua quando Blackwood volta dos mortos, decidido a dominar o mundo. Obviamente que resta a Holmes e a seu colega desvendarem o que pode ter ocorrido e encontrarem uma solução lógica para este enigma, com um enredo todo recheado de cenas de ação, lutas, tiroteios e explosões, numa estratégia típica do século XXI para atrair o público.
O filme é muito divertido e com reviravoltas curiosas, bastante ao estilo habitual de Guy Ritchie, mas o que incomoda é a distorção de um personagem clássico, mundialmente conhecido e reconhecido, e desintegrá-lo.
Será que o personagem original não seria interessante o bastante para protagonizar um filme para o público de hoje, sem a necessidade de acrobacias fenomenais, cenas de pugilato e outras pirotecnias?
Li pela primeira vez os livros de Sherlock Holmes quando tinhas uns 15 anos e lembro-me que fiquei deslumbrado com aquele personagem brilhante, que não necessitava da força bruta para solucionar os maiores problemas de sua época.
Não seria uma mensagem igualmente eficaz hoje, ao invés de um sujeito que resolve tudo na porrada, com os músculos superando o cérebro?
Ou se tornou impossível um filme que faça jus aos romances de mistério dedutivo, quando uma mente extraordinária é capaz de resolver crimes sem disparar um tiro sequer, nem dar uma voadora na cara do bandido?
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