
Traduzir "The Grudge" (O Rancor) por "O Grito" foi uma infelicidade das grandes, principalmente porque em "O Grito" não há mais do que três gritos.
Foi bastante interessante como o diretor Takashi Shimizu adaptou o seu próprio filme, "Ju On: The Grudge", para o público norte-americano. Pois o roteiro se desenvolve de maneira bastante semelhante, inclusive com falas idênticas, até a metade do filme, quando, então, o original e o remake se distanciam. Buscando privilegiar a atriz Sarah Michelle Gellar, ele a transforma em protagonista de uma história que, originalmente, não possuía uma protagonista definida.
O que Shimizu fez nada mais foi do que tornar digestível uma complexa história japonesa em algo atrativo e compreensível para o limitado público ocidental. Em "Ju On", o espectador nunca sabe exatamente em que momento temporal a história está se passando, porque não há nenhuma indicação de que se trata do presente, passado ou futuro. Já em "O Grito", Shimizu, apesar de manter a narrativa não-linear, deixa bastante claro o que é presente e passado. Além disto, ele ainda esclarece qual é a razão de a casa ser assombrada pela alma da pavorosa Kayako, enquanto que em "Ju On" tudo permanece numa aura de mistério e de especulação.
É um bom filme de terror e cumpre sua tarefa de amedrontar (mas não tanto quanto o original).
Basicamente, "O Grito" aborda uma lenda tradicional japonesa, na qual se diz que quem morre sentindo um grande rancor permanece no local da morte, e qualquer pessoa que entrar neste recinto também será vitimada.
Este influxo tremendo de diretores, atores e roteiros provenientes do extremo oriente, assemelha-se muito àquela geração do pós-guerra, quando uma porção de alemães refugiados e atores e diretores do leste europeu contribuíram grandemente para a consolidação da indústria cinematográfica norte-americana. Agora, uma nova linguagem está penetrando em Hollywood, uma linguagem mais sutil, estética e mistificada.
A dúvida que permanece é: será que os orientais mudarão Hollywood ou será que Hollywood tragará os orientais?