terça-feira, dezembro 11, 2007

Ninguém Pode Saber (2004)


A razão de ser do título é óbvia: uma mãe solteira tem quatro filhos, mas por medo de ser expulsa pelos locadores do apartamento que acabou de se mudar, ela se vê forçada a esconder três das crianças, deixando apresentando apenas o mais velho como seu filho. Ninguém pode saber que 5 pessoas habitam aquele pequeno apartamento.
No entanto, esta mãe não pode ser considerada como um exemplo de dedicação. Durante longas horas, talvez a maior parte do dia, as crianças são obrigadas a permanecer trancadas em casa, realizando tarefas domésticas.
Se este cenário já não fosse opressivo e angustiante o bastante, a mãe arranja um novo namorado e desaparece com ele por meses, deixando as crianças sozinhas, à própria mercê.

Apesar de responsáveis, o desfecho é quase inevitável: a total desintegração da família.

No entanto, "Ninguém Pode Saber" choca apenas pelo fato de ser um filme japonês, ideal de civilidade e avanço. Se transportarmos o tema para um contexto brasileiro, imediatamente constatamos o contraste que há entre um mundo onde histórias como esta são exceções, e um mundo onde é quase um regra, onde crianças vagam pelas ruas mendigando comida e cheirando cola. "Ninguém Pode Saber" é pessismista e desconsolador - foi inspirado numa história real -, mas nem se aproxima ao terror cotidiano de países em desenvolvimento.

Assistir a este filme é quase um desafio. O ritmo é lento, as cenas são longas, há excessos, há silêncio. Todas as expectativas são frustradas, nada e tudo ocorre ao mesmo tempo; na ausência, as lacunas se preenchem e se anulam.

Um filme constrangedor.

9 comentários:

Leonardo Maturana disse...

Sei que esse post é bem velho, mas vou comentar assim mesmo.
Acho que vc se precipita ao críticar o filme. O principal não é denuncia social, mas a reação das crianças, suas emoções e sentimentos.
Mesmo se comprado à realidade brasileira, o filme tem seu valo: aqui, as crianças sairiam à rua, os vizinhos acabariam criando elas, ou mesmo o tráfico faria isso. Bem ou mal, elas não estarias por conta própria.
A questão do filme não é o problema social, mas a solidão dessas crianças.

Dizer que assistir o filme é um desafio, pontua contra vc. Mostra que não tem familiaridade com cinema e que não aguentaria ver filmes de Bergman, Gus Van Sant, Lars von Trier, Jean Rouch.

E dizer que o filme é constrangedor é forçar a barra. Se não gosta, diz que ele é chato, lento.

O filme é lindo, com fotografias belas e uma ótima questão para abordar.

Henry Alfred Bugalho disse...

Acho que quem se precipita é você, Leonardo, a achar que sabe quais são meus gostos cinematográficos.

Um bom exemplo de cinema japonês que utiliza uma estrutura introspectiva bastante semelhante à deste filme, e, mais importante, que funciona, é "Dolls" de Takashi Kitano.

Discordo de você de que "Ninguém pode saber" não se trata dum filme social, pois o isolamento, aliás, as próprias regras que proíbem uma família possuir mais de X membros para residir num apartamento, é um fator social.

E também é uma crítica social quando o menino mais velho é impedido de trabalhar porque é menor de 14 anos, ou quando eles residem meses (talvez anos) sem pagar aluguel e mesmo assim sem ser despejados, ou quando as pessoas constatam que eles estão sozinhos e nem por isto contatam algum tipo de assistência social.

É a sociedade quem determina certas reações individuais e certos comportamentos - aquilo que entedemos como o "socialmente aceito". E eles são obrigados a mentir, a mascarar a realidade justamente porque não querem que aquela sociedade interfira na unidade familiar deles.

Pelo jeito, quem não entendeu a história, apesar de ter gostado do filme, foi você.

Henry Alfred Bugalho disse...

"Mesmo se comprado à realidade brasileira, o filme tem seu valo: aqui, as crianças sairiam à rua, os vizinhos acabariam criando elas, ou mesmo o tráfico faria isso. Bem ou mal, elas não estarias por conta própria."

E, sinceramente, Leonardo, não sei se você está falando do mesmo Brasil no qual eu vivi 26 anos.
Duvido que as coisas tenham mudado muito nestes dois últimos anos, mas, pelo que me lembro, as grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba eram repletas de meninos de rua, mendigando por comida, cheirando cola ou fumando crack, sendo chacinado por policiais em frente de igrejas (como da Candelária, por exemplo) e aos quais ninguém dá a mínima.

Talvez esteja na hora de erguer os olhos dos livros, ver para fora das Universidades, e começar a enxergar a realidade.

Leonardo Maturana disse...

Quando disse que aqui no Brasil esses meninos teriam ajuda, pensei que esses garotos sairiam às ruas, encotrariam outros garotos na mesma situação e teriam um destino provavelmente pior, além de tornarem-se piores problemas sociais. Mas nunca tentariam se esconder dentro de casa.
Não estou dizendo com isso que a situação brasileira seja melhor, muito pelo contrário. Apenas acho que a comparação das crianças do filme com abandonados brasileiros não é pertinente.
Concordo que devemos levar em conta que a realidade japonesa é diferente e que existem lugares piores no mundo, mas isso não desqualifica o argumento do filme.

A denúncia social que o filme traz não se relaciona ao abandono de menores. Não acho que o filme só choque por ser um caso de abandono em uma realidade japonesa. O que choca é o descaso dos vizinhos, da mãe, ao estado que toma os filhos ao invés de oferecer ensino gratuito de qualidade e, principalmente, o modo como eles seguem normalmente após o enterro da irmã menor.

Concordo que me precipitei, perdoe minha paixão pelo filme, que me levou a certa falta de educação.

Gostei do blog e dos comentários sobre meu post.

Abraços

Leonardo Maturana disse...

Se um dia o filme passar novamente pela sua mão, repare nas técnicas de filmegem. Cada enquadramento, como o diretor alinha a paisagem com o estado de espírito dos personagens.
Em certa cena ele mostra o passar do tempo com um close no esmalte descacado na mão da menina. Cada cena tem propósito no filme.

Talvez você deixe de achar o filme tão constrangedor assim. (ou não)

Mas foi onde vi o maior trunfo do diretor: nas técnicas, e não no debate sociologico.

Henry Alfred Bugalho disse...

Pode até ser, Leonardo, mas eu prefiro olhar os filmes como um todo.
Hollywood costuma produzir filmes perfeitos tecnicamente, mas com conteúdo pobre. Por outro lado, às vezes um outro filme, sem muito recursos, pode ser muito mais criativo. Quer dizer, depende muito...

E devo confessar que já fui mais adepto do cinema autoral, mas depois que assisti "Mirror" de Tarkovsky, percebi que esta fase passou.
Do mesmo modo que boa literatura não se faz só de forma, o bom cinema também precisa de mais do que isto. É um conjunto de fatores.

Danilo Daher disse...

Não é bem isso. A questão social têm um papel terciário na narrativa. Ela está fundada principalmente na transformação das crianças mediante à falta da criação/autoridade dos pais.
Como seriam as crinças sem a influência dos pais?
Como elas sobreviveriam sozinhas e marginalizadas na sociedade, já que não podem assumir responsabilidades que a inserem no sistema?
Se isso só é possível no Japão é outra história. Ela seria possível em qualquer lugar. Mudaria, provavelmente, as motivações dos personagems. Talvez o abandono fosse causado por um outro motivo. O filme "O ano em que meus pais sairam de férias" seria um bom exemplo da universalidade do tema.
Se trata com certeza de um tema universal, mas mesmo assim e talvez por isso, possa parecer chato para quem está acostumado a dar tanto valor ao espetáculo diário da mídia brasileira.
Por falar nisso, esse filme saiu das manchetes dos tablóides japoneses, mas, diferentemente da mídia que prefere crucificar a mãe pelo abandono dos filhos, Kore-eda aponta a objetiva para o lado que mais interessa nesta história: como esses meninos sobreviveram e cresceram sem os pais, a base da família segundo diversas culturas, inclusive a ocidental.

Henry Alfred Bugalho disse...

"Como seriam as crinças sem a influência dos pais?"

Isto é um dos temas que perpassa a trama, já que, ao adaptar uma história real para o cinema torna-se necessário criar a tensão para desenvolver o enredo (tensão, aliás, que quase inexiste na trama deste filme). No entanto, o que motiva a história real que inspira o filme são fatores sociais sim, assim como são fatores sociais que nos condicionam a pensarmos o cinema em termos de arte e/ou indústria.

Agora, se o tema é "como seriam as crianças sem a influência dos pais", penso que "O Senhor das Moscas" de William Goulding (também adaptado para o cinema) é muito mais ilustrativo, dinâmico, universal e atemporal, apesar de não ser inspirado em fatos reais.

Não questiono que o tema do abandono não seja universal, pelo contrário, está nas mitologias gregas - como de Páris - e romana - como de Rômulo e Reno, e é uma realidade no mundo inteiro, mas de maneira muito mais dolorosa e generalizada em países pobres. A chatice não está no tema, repito, mas na abordagem, que definitivamente pode estar vinculada à nossa formação cultural ocidental, que, por si só, não é boa nem ruim, principalmente porque nossos conceitos de "obra de arte" são ocidentais.

E duvido que a inserção desta mesma história em outro contexto mudaria as motivações dos personagens, pois a motivação é a sobrevivência, a mesma que qualquer abandonado. O que mudaria seriam as circunstâncias e os desafios que eles teriam de enfrentar.

Felipe Rodrigues disse...

Que boa esta discussão sobre esse filme que vi apenas hoje. Gosto muito de cinema autoral e também por isso gostei muito do filme. Não concordo com Henry pois creio que ele já sabia se tratar de um filme autoral e ele mesmo confessa que já não vê muita graça nesse tipo de cinema (talvez Tarkovsky seja um dos filmes mais difíceis de se ver e pode desanimar). Portanto, ele não podia esperar um filme mais fácil, linear, sem um final aberto. Ele apenas analisou superficialmente, parecendo um espectador acostumado apenas com filmes comerciais. O filme foca a união dos irmãos, suas jornadas pela vida sem ninguém por eles... e muito mais. O filho mais velho tenta retomar sua vida social (que seus irmãos não tem) mas tem sempre que se preocupar com a casa. Uma cena que marcou muito é a expressão de felicidade quando esse filho mais velho resolve levar seus irmãos para passear. Só ali já valeu o filme. Fora que o elenco é ótimo. Também não concordo com os comentários que dão a entender que nos países pobres as crianças sofrem mais. Criança abandonada é igual em qualquer lugar. Criança japonesa ou africana, todas devem ter o direito de ir pra escola, não trabalhar, ter vida social e comida. De qualquer modo, serve pra pelo menos enxergarmos que as mazelas humanas (e desumanas) se encontra em qualquer sociedade, seja rica e "educada" como a do Japão ou não. Mas Henry acerta em outras críticas, como o ótimo Festa de Família.