domingo, novembro 12, 2006

Pleasantville - A vida em preto e braco (1998)


O enredo não poderia ser mais estúpido:
Dois irmãos, ao brigar pelo controle remoto da TV, David (Tobey Maguire) para assistir a reprise de uma série da década de 50, Jennifer (Reese Whiterspoon) para assistir a um show na MTV com seu ficante, são transportados para o interior daquela boçal série.
No entanto, se o espectador sobreviver aos primeiros quinze minutos e ultrapassar esta historiazinha que poderia pertencer a um filme da Xuxa ou dos Trapalhões, ele será recompensado com um belíssimo desenvolvimento. Posso confessar que este filme está entre um dos meus preferidos pela inteligência dos questionamentos que incita.
"Pleasantville", a cidade fictícia que dá nome ao filme, é perfeita, entendendo-se perfeição como o extremo da moralidade hipócrita que proibe sexo pré-marital, capacidade de reflexão individual, desejo de revoluções e mudanças e liberdade de expressão. Nesta cidade, os casais dormem em camas separadas, os filhos são exemplos para a sociedade, o time de basquete jamais perde, as donas-de-casa estão sempre com o jantar ou os canapés para as visitas prontos e a única função dos bombeiros é resgatar gatos em árvores.

Dois paralelos podem ser traçados desde "Pleasantville - a vida em preto e branco":
O primeiro deles é com o Gênese. Pleasantville é encarada como um paraíso, onde não há pecado e tudo flui em abundância. Todos levam suas vidas numa pacata inconsciência e a existência é "agradável". Todavia, por um ato miraculoso, através da figura do reparador de TVs que dá a David e Jennifer o controle remoto mágico, os dois irmãos começam a modificar a alienada existência da cidade, dotando-a de cores e vida.
Alguns teóricos, principalmente de correntes esotéricas, defendem que o pecado original, aquele que fez com que Adão e Eva fossem expulsos do Paraíso, trata-se do conhecimento do sexo. A "árvore do conhecimento" seria, na verdade, o conhecimento do ato sexual. "Pleasantville" corrabora com esta tese, pois é, através do sexo, instigado por Jennifer (que não era nenhuma santa no mundo real), que as verdadeiras mudanças começam. Ao comerem o fruto proibido, uma série de atitudes muda entre os cidadãos da cidade e, em pouco tempo, o "agradável" cede lugar ao ciúmes, ao adultério, ao medo, à paixão.
O segundo paralelo é com a própria história recente dos EUA, com a revolução artística e sexual da década de 50, quando as fachadas do puritanismo desabaram. O advento do rock'n'roll, dos movimentos libertários e revisionistas mudou a mentalidade de um país preconceituoso e bitolado.
O histórico do diretor, produtor e roteirista Gary Gross não é dos melhores; antes e depois deste filme sua filmografia é inexpressiva. Não é possível saber se ele leu Bataille, Foucault e toda a geração de estruturalistas que põem a sexualidade e a arte em primeiro plano como motores de transformação. Provavelmente não. Mas, inconscientemente, como as personagens de seu filme, Gross atinge um extraordinário patamar de lucidez ao retratar a reação retrógrada de discriminação e censura por parte dos homens "decentes" da cidade.
Mas as mudanças, quando começam, dificilmente podem ser detidas e Pleasantville jamais poderia voltar a ser o que era.
O personagem mais intrigante, ao meu ver, é Bill Johnson (Jeff Daniels), o dono da lanchonete, cuja maior alegria é a expectativa do Natal, quando ele pode pintar a vitrine da lanchonete com temas natalinos. Ele é o chamado do artista, de alguém que possui um novo olhar e, para isso, precisa romper com as normas sociais. Algumas das mais belas cenas do filme envolvem a presença de Bill e David, ambos descobrindo o que é a verdadeira liberdade.
"Pleasantville - a vida em preto e branco" é a prova de que uma má idéia pode ser o germe de uma maravilhosa execução. Um elogio à liberdade e a tolerância. Um conclame ao respeito às diferenças e à necessidade de constante revisão de nossos conceitos. Estimulando-nos a pôr um pouco de cor em nossas existências pacatas.

16 comentários:

Anônimo disse...

Eu queria ver esse filme... Por acaso você viu em DVD?
Abraços, Marco

Henry Alfred disse...

Oi, Marco.

Este filme ainda não foi lançado em DVD no Brasil, nem sei se será. A primeira vez que o vi foi em VHS mesmo e, agora, eu comprei o DVD nos EUA. Mas se você ainda tiver videocassete, procure numa boa locadora que encontrará.

Abraços

Franciele disse...

Olá!

Assisti este filme somente agora, e por muito insistir uma das professoras da minha pós graduação.Concordo com seu comentario, o filme nos seus primeiros quinze minutos da ideia de um roteiro simplista e infantil.Porem, quando existe a mudança de cidade o filme troca completamente de estilo, prende atenção e faz pensar em nossas vidas.Adorei o filme, tanto na historia, quanto nos personagens, cenarios, achei o filme ótimo.Não conhecia seu blogg, vou visita-lo mais vezes, vi comentarios sobre outros filmes, achei muito interessante o jeito com que escreve, mesmo que em alguns filmes nossas criticas sejam diferentes.Parabéns!

Anônimo disse...

cara mais bobo o dono desse blog.
filme otimo e o cara fica dando uma de filosofo... Não é possível saber se ele leu Bataille, Foucault ...

isso tem cara de gente recalcada que nao conseguiu fazer outro curso na universidade.

Henry Alfred Bugalho disse...

Bem, anônimo, não entendi seu comentário, já que "filme ótimo" é exatamente o que eu disse.
Geralmente, eu até retruco os comentários, mas o seu é tão estúpido que não saberia nem por onde começar...

Anônimo disse...

Meu amigo, tem como alguem disponibilizar ele para download?

moniquinha_jf disse...

Ei! tem esse filme no Youtub..
É só digitar "A vida em preto e branco". Só não tem o começo, mas tem o filme quase completo.

Adoro esse filme..
Beijos

Andressa disse...

belíssima crítica, altamente expressiva. Irei visitar o blog com mais frequencia, abraços!

Morenocordopecado disse...

tudo bom mas faltou a abordagem da homossexualidade no filme.

Anônimo disse...

Foucault não é estruturalista. É pós estruturalista.

Henry Alfred Bugalho disse...

Na verdade, Foucault não se identificava com o estruturalismo nem com o pós-estruturalismo, mesmo assim, a obra dele está numa transição entre estas duas correntes.
Podemos dizer que a fase mais estruturalista dele foi até a obra "Arqueologia do Saber", quando ele começou a ser rotulado como um pós-estruturalista, denominação que, a meu ver, não diz muita coisa, já que as orientações dos supostos autores pós-estruturalistas são muito distintas umas das outras, assim como não me diz nada o título de neo-estruturalismo de Habermas...

Bettiânia disse...

O filme é muito interessante, sem falar da música: Miles Davis, Herbie Hancock. Estamos acostumados a ver aqueles atores e filmes previsíveis, fiquei mesmo surpresa porque são ótimos atores!

Bettiânia disse...

Morenocordopecado, acho que a maioria dos filmes mantém a homossexualidade na invisibilidade mesmo. Mas realmente, neste filme seria interessante abordar também questão homoafetiva.

Anônimo disse...

vi esse filme meio sem querer na tv, no começo o achei bobo mas ainda bem que não desliguei a tv!
adorei sua abordagem, raro encontrar análises sobre filmes sob um ponto de vista além do factual e que não sejam pretensiosos. obrigada e parabéns pelo ótimo blog!

Anônimo disse...

o último comentário foi meu, me chamo maria, esqueci de assinar.
até!

maria

Rogéria disse...

Amei de paixão este filme, belo contexto, bela música... Realmente, no início ele não promete a reflexão que acaba por abordar ao longo do filme. Belíssimo! Ótimo para ser comentado por psicólogos e psiquiatras em suas sessões de Cinema...