domingo, fevereiro 05, 2006

O Segredo de Brokeback Mountain (2005)



Em 1963, ano em que se inicia a história de "Brokeback Mountain", os Estados Unidos ainda não haviam mergulhado na onda da revolução sexual. Se bem que no Wyomming a tal revolução jamais deve ter chegado.
Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) se conhecem após serem contratados para pastorearem ovelhas na Montanha Brokeback. O isolamento e uma coexistência quase matrimonial os aproxima, fazendo com que, numa fatídica noite gelada, Ennis e Jack se relacionem sexualmente. A trama de "Brokeback" se desenrola por mais de um vintênio, período no qual tanto Ennis quanto Jack são obrigados a esconder sua homossexualidade e revestirem-se de uma carapuça de vaqueiros machões.
O entusiasmo com o qual esse filme foi recebido, ganhador de três Globos de Ouro e provável ganhador dos Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor, representa duas mudanças importantes:

1 - O homossexualismo está deixando de ser encarado como uma aberração, como pecado, como algo a ser estirpado da sociedade. Mais do que nunca, as pessoas estão revendo seus conceitos e percebendo que a homossexualidade sempre existiu e, nas épocas em que aparentava não existir, era porque, devido ao preconceito, tinha de ser velado.

2 - Que o cinema também está disposto a pôr de lado seus juízos moralistas (principalmente o puritanismo norte-americano) e deixar de retratar o homossexualismo esterotipadamente. Comédias ou Tragédias (no sentido mais exato dos termos) tendem a mostrar os dois extremos do mundo gay, seja a bicha-louca ou a drag queen ("Priscila, A Rainha do Deserto", "Para Wong Fu, Obrigada por Tudo, Julie Newmar"), completamente fora dos padrões sociais vigentes, ou o homossexual, seja homem ou mulher, transtornado, socialmente inaceito, oprimido, cujo único desfecho é, inevitavelmente, a desgraça ("Meninos Não Choram", "Monster: Desejo Assassino", "Filadélfia").

Não que "Brokeback Mountain" faça do homossexualismo um universo maravilhoso, contudo, o modo como Ang Lee escolheu para contar essa história, resultado de uma incrível sutileza e tato, surpreende. Tamanha é a naturalidade com a qual o tema é apresentado, que poderia se tratar de um romance adúltero heterossexual.
De fato, se não fosse pelo elemento gay, o que ainda hoje em dia é chocante e causa estupor, esse filme seria trivial e passaria desapercebido. Porém, por pisar num solo relativamente arenoso e quase intocável, "Brokeback" tem se tornando um fenômeno de público e de crítica.
Certamente será uma daquelas obras que dentro de dez ou quinze anos, as pessoas olharão para trás e pensarão: "Mas por que um filme desses causou tanta comoção?"

Outro fator surpreendente é a própria presença de Ang Lee na direção. Como um chinês, que dirigiu filmes épicos em sua pátria (como "O Tigre e o Dragão"), conseguiria apreender o que se passa no coração da América?

Todavia, a nacionalidade do diretor provou ser o menor dos problemas e, talvez, pelo fato mesmo de ser um estrangeiro, ele pôde perceber com sensibilidade essa mudança sexual e comportamental que tem ocorrido lentamente nos últimos vinte ou trinta anos no Ocidente.
Como quase tudo que envolve preconceito, o antagonista não se trata de um indivíduo somente, mas de toda uma construção cultural, que define o que é ou não permitido. Em "Brokeback Mountain", o inimigo é a sociedade, mas, acima de tudo, é o preconceito que os próprios personagens trazem dentro de si, são eles que não se permitem ser como são.

O filme de Lee é um pequeno passo na luta contra o preconceito e, possivelmente, nem seja um dos passos mais relevantes.


Também pode ser lido em
www.adorocinema.com.br

2 comentários:

MycPereira disse...

En pleno siglo XXI es un film que causa controversia porque la sociedad aún quiere tener los ojos tapados ante tal situación que desde todos los tiempos fue común. El homosexualismo no es de hoy, es de siempre y este film, con su antiguedad, lo ratifica.

Anônimo disse...

Eu achei o filme muito bom, mas pelo lobby que fizeram dele, eu esperava por uma revolução do cinema. Mas, mesmo assim o filme é bom. Também fiz uma resenha dele, depois passa lá pra ver. Aproveitando, queria dizer se vc viu Crash - No Limite? Queria saber a sua opinião sobre o filme...
Marco