segunda-feira, agosto 08, 2005

Machuca (2004)



No auge do processo socialista no Chile, encaminhado pelo presidente Salvador Allende, "Machuca" retrata o confronto de dois mundos.
Gonzalo Infante (Matías Quer) estuda numa das melhores escolas de Santiago, no entanto, a democratização de várias áreas faz com que o diretor do colégio, padre McEnroe (Ernesto Malbran), desenvolva um esquema de integração de classes sociais. Graças a esta decisão, alunos carentes, entre eles Pedro Machuca (Ariel Mateluna), obtêm a oportunidade de ingressar nesta conceituada instituição de ensino.
Em geral, a opção por retratar o universo infantil funda-se numa ilusão de que as crianças vivem num microcosmo lúdico, alheios a toda realidade e incólumes diante das crises históricas. Os exemplos são vários: "Lugar Nenhum na África", "Império do Sol", "Língua das Mariposas", "As Cinzas de Ângela", etc. Todos ambientados em momentos críticos, nos quais se exige algum tipo de compromisso (revolucionário ou contra-revolucionário), e nos quais as conseqüências destas decisões podem ser fatais.
"Machuca" sugere que seguirá esta orientação, ainda mais quando Pedro Machuca e Gonzalo Infante se aproximam e tornam-se amigos. De fato, neste primeiro instante, consciência de classe ou distinção econômica não são fatores capazes de interferir neste inusitado relacionamento e tal mescla proporciona experiências nunca antes imaginadas por aqueles dois meninos.
Porém, contradizendo a fórmula lúdica da alienação infantil, "Machuca" reforça mais do que nunca a noção marxista de lutas de classes. Num país dividido entre uma burguesia receosa em perder seus direitos de propriedade privada, do lucro e das regalias que o capitalismo proporciona àqueles que estão no topo da pirâmide econômica, e um proletariado esmagado pela miséria, sequiosos por mudanças e justiça social, a amizade entre Pedro e Gonzalo não pode ser permitida.
As diferenças não podem ser ignoradas, ainda mais quando a sombra de um golpe militar paira sobre o Chile, quando a antiga ordem social está para ser reinstaurada, quando toda a América Latina está prestes a ser tragada pelas mãos de ferro de ditaduras ou por populismos maquiavélicos.
"Machuca" é uma lição histórica sobre o destino de todas as utopias: a triste constatação de que a centelha de esperança por igualdade sempre é sepultada pelos punhos dos que enriquecem às custas da desigualdade.

8 comentários:

André Logan disse...

Poutz, eu adoro filmes da América do Sul... gostei da história deste, já tem em dvd ou ainda tá no circuito de cinema???

Henry Alfred disse...

Oi, André.

Acabou de chegar nas locadoras, vale a pena conferir.

Anônimo disse...

O filme não se restrige ao registro
do inicio da ditadura militar chilena, mas demonstra que as relacões autoritarias,chanceladas nas diferencas de classes, representadas na relacão de amizade dos protagonistas foram o elemento encadeador do golpe, isso em uma analise mais minimalista.
Pedro e Gonzalo são partes de um mesmo chile, mas chiles que em nome de um determinismo de classes não podem se encontar, machuca é uma metafora para explicar o golpe militar no chile, sem muito maetrialismo histórico.mas vendo a questão da desiguadade como um elemento da condicão humana.
O diretor do filme esta de parabéns, o roteirista também, o filme é brilhante, leva a questinar sobre as diferencas, a exitencia humana num mundo desigual e irônico.

Tiago disse...

é engraçado q vc mora nos estados unidos, paga impostos e portanto financia a CIA para que ela continue cometendo atrocidades como cometeu no chile. Hipocrisia de sua parte falar sobre como é triste ver o que aconteceu na américa latina se voce fugiu daqui exatamente para morar no pais que mais atrocidades cometeu durante o séc XX.
vc financia a guerra no iraque
vc financia o imperialismo
evidente q vc naum vai postar isso no seu site, mas td bem cara pode fechar os olhos e fingir que naum é com vc

Henry Alfred Bugalho disse...

Este foi um dos argumentos mais idiotas que já ouvi na vida, Tiago. Você também paga um monte de impostos no Brasil (aliás, eu também) e também vê eles serem mal aplicados, ou desviados.

Na verdade, este seu papo parece coisa de adolescente que acabou de ler Eduardo Galeano e que quer pôr todas as culpas das mazelas do mundo no imperialismo americano e no capitalismo. O socialismo foi responsável por tantas ou mais desgraças políticas e nem por isto deixa de arrebanhar acólitos entre aqueles que adoram vomitar idéias alheias.

Além disto, seu comentário demonstra uma ignorância total sobre o comportamento dos americanos. Eu jamais encontrei um deles que apoiasse a guerra ao Iraque, ou que apoiaria várias das políticas externas do país.

Mas é assim que funciona a democracia, você vota em alguém na esperança de que ele vá responder aos anseios populares. Você não pode culpar uma nação inteira pelas merdas de seus políticos, senão faltariam palavras para insultar os brasileiros, que historicamente é um dos povo que mais elegeu corruptos e ineptos. A não ser que você se orgulhe dos anos de ditadura militar, da era Collor ou dos mensalão da administração Lula, pagos com os impostos dos seus avós, seus pais, ou seus, se você tiver idade (ou renda) para contribuir.

Anônimo disse...

BEM TIAGO DA PRÓXIMA VEZ PENSE E PESQUISE ANTES DE SAIR CRITICANDO O QUE OUTROS POSTAM...

Julio disse...

Brigado me ajudou muito com o meu trabalho.

Méle Dornelas disse...

Henry,

O comentário de Tiago foi infeliz. Mas, ao mesmo tempo, acho que você também não foi feliz na comparação. Não acho de jeito nenhum que você morando nos Estados Unidos contribua com as atrocidades que o dito país proporciona, mas, comparar corrupção, que é um processo interno de um país, a uma política desumana que a terra do tio sam proporciona a outros países é demais.

Os problemas de corrupção e que prejudicam tantas pessoas aqui dentro do nosso país tropical não saem para o mundo e matam, destroem, humilham em nome de uma ganancia desmedida.

A corrupção, a SONEGAÇÃO DE IMPOSTOS (quem ataca a corrupção - eu tb - nunca lembra da sonegação), são males a serem combatidos e denunciados aqui dentro, não interferem no cotidiano de pessoas de outros países pelo mundo.

As politicas dos EUA não, a gente sabe. São proporções totalmente diferentes.

No mais, Machuca é um filme lindo! :)